Chegou às plataformas nesta quinta-feira (15) o álbum Criolo, Amaro & Dino, encontro inédito entre Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago que transforma as raízes da língua portuguesa e da diáspora africana em um território musical comum. O disco nasceu de um encontro espontâneo em Lisboa e rapidamente se expandiu em uma obra que ultrapassa gêneros, conectando rap, jazz, MPB, batuku, funaná e ritmos nordestinos em uma mesma narrativa. Ouça aqui!
O ponto de ignição foi a faixa “Esperança”, criada quando Amaro apareceu em estúdio enquanto Criolo e Dino desenvolviam um projeto. A canção ganhou vida própria, foi indicada ao Latin Grammy e abriu caminho para o que viria a ser um álbum inteiro. Gravado entre Rio de Janeiro, Recife, São Paulo e Lisboa, o projeto soa como um país que não existe no mapa, mas que emerge da memória coletiva afro-atlântica.
Um trio, três linhagens que se encontram
Criolo leva ao disco a poesia urbana de São Paulo e a força política do hip-hop brasileiro. Dino D’Santiago, algarvio de raízes cabo-verdianas, traz a espiritualidade e os ritmos do arquipélago para o centro da música pop europeia. Amaro Freitas, um dos pianistas mais inventivos do jazz atual, ancora tudo em um piano percussivo moldado por maracatu, frevo e baião. Juntos, eles não buscam um “meio-termo”: criam um idioma novo, costurado por memória, invenção e afeto.
Canções como territórios de memória
O álbum alterna crônicas musicais e encontros comunitários. Em “E Se Livros Fossem Líquidos?”, metáforas literárias se derramam em reflexão política. “Você Não Me Quis” ganha corpo com as Clarianas, enquanto “Menina do Côco de Garipé” evoca heranças anteriores ao próprio conceito de Brasil com rabeca, coro e percussão.
A presença cabo-verdiana não aparece como ornamento, mas como eixo: em “No Vento de Nós”, Dino canta “Se o futuro é uma pergunta, eu respondo com o mar”, evocando a Kalunga, linha simbólica entre o visível e o invisível. O piano de Amaro reinventa espaços, e os beats, assinados por Criolo, Holly e Seiji, dialogam com batidas ancestrais.
Abundância, groove e urgência
Em “Seka”, o batuku conduz um raro gesto de abundância em tempos de escassez, celebrando a resistência das mulheres cabo-verdianas. Já “Amazônia” mergulha num groove de matriz jazz (ecoando A Tribe Called Quest, Karriem Riggins e Azymuth) para lançar um alerta direto: “A Amazônia está pegando fogo, não é só L.A.” A canção aproxima geografias para lembrar que o colapso climático ignora fronteiras.
Um disco que cria lugar
Sem reivindicar centro, Criolo, Amaro & Dino cria um. Cada faixa desloca coordenadas culturais e faz circular histórias historicamente confinadas. É uma topografia emocional do Atlântico negro contemporâneo com cicatrizes à mostra e olhos no futuro, que reafirma a música como espaço de reparação, imaginação e liberdade.
