Dois Procuradores mergulha na burocracia da ditadura e lança um alerta

Aleksandr Kuznetsov como Alexander Kornyev em Dois Procuradores (Reprodução/Retrato Filmes)

Dois Procuradores é um filme que mergulha na burocracia de uma ditadura e expõe os mecanismos de opressão e desumanização.

Dirigido por Sergei Loznitsa, a história do longa acontece em 1937, na União Soviética, enquanto milhares de cartas de prisioneiros injustamente acusados eram destruídas, uma delas chega ao jovem promotor Alexander Kornyev. Determinado, ele decide enfrentar a polícia secreta NKVD e denunciar seus métodos arbitrários.

Do início ao fim, os cenários do filme são sufocantes, dos corredores intermináveis da prisão, celas escuras até os escritórios, mesmo os mais luxuosos. Tudo faz com que o espectador se sinta tão preso quanto os personagens. Os tons frios reforçam a dureza da história. Quase não há músicas, o que torna cada cena mais pesada. Em qualquer lugar pode haver um traidor, e quem tem algum poder demonstra isso com arrogância ou olhares que chegam a ser constrangedores.

Aleksandr Filippenko como Stepniak em Dois Procuradores (Divulgação/Retrato Filmes)
Aleksandr Filippenko como Stepniak em Dois Procuradores (Divulgação/Retrato Filmes)

A burocracia, que também governa toda a narrativa, é reforçada pela atuação rígida dos atores. Aleksandr Kuznetsov, como o advogado Kornyev, entrega uma boa performance contida, marcada principalmente por olhares. Por sua vez, Alexander Filippenko, que interpreta Stepniak, o intelectual preso injustamente, faz o filme ganha força emocional. E ambos os atores conseguem segurar longos monólogos.

Com ritmo lento, diálogos longos e silêncios pesados, Dois Procuradores exige paciência. O destino de Kornyev é previsível. Não há reviravolta.

Mais do que um drama histórico, Dois Procuradores funciona como um alerta atual. Ao revisitar o terror de 1937, mostra que nenhuma sociedade está livre do autoritarismo. A narrativa apenas reforça a constatação amarga de que a história pode se repetir.

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