A temporada final de Stranger Things encerra uma das séries mais influentes da cultura pop recente com espetáculo visual e ambição estética, mas esbarra em escolhas narrativas seguras demais. Mesmo tecnicamente impecável, o adeus deixa a sensação de que a série terminou menor do que poderia — e menor do que já havia sido.
Nota: 6/10
É curioso como Stranger Things conseguiu algo raro: fazer com que o final da quarta temporada parecesse mais definitivo, mais corajoso e emocionalmente mais satisfatório do que toda a sua temporada de encerramento. A impressão é a de que a série já havia encontrado seu verdadeiro clímax — e, ainda assim, decidiu prolongar a história sem clareza do que realmente queria dizer.
O principal problema da temporada final está na preguiça narrativa disfarçada de espetáculo. Visualmente, a série continua impressionante: efeitos especiais robustos, trilha sonora impactante e direção segura sustentam o peso da marca. Há dinheiro em cena — e ele aparece. O chamado “visual de centavos” é evidente em cada episódio, com batalhas grandiosas, cenários elaborados e uma estética pensada para parecer épica do início ao fim.
No entanto, por trás dessa embalagem luxuosa, o roteiro apresenta furos difíceis de ignorar, soluções convenientes e conflitos resolvidos mais por obrigação de encerrar a trama do que por coerência interna. A grandiosidade visual acaba funcionando como cortina de fumaça para uma história que evita decisões realmente difíceis.
Outro ponto frustrante é a falta de desenvolvimento real das relações. Personagens que caminharam juntos por anos terminam a série sem diálogos à altura de suas trajetórias. Amizades, romances e laços familiares são tratados de forma apressada, quase protocolar, como se a série estivesse apenas “checando itens” antes de subir os créditos finais. Falta tempo de respiro, falta silêncio, falta emoção sustentada.
Quando se fala em coragem narrativa, Stranger Things falha novamente. Assim como em temporadas anteriores, a série não se permite matar personagens centrais, optando pela fórmula já desgastada de introduzir figuras secundárias ou novas apenas para cumprir o papel de sacrifício emocional. O risco nunca é real — e o público percebe.
O ponto mais controverso e talvez o mais decepcionante — é a condução da chamada “morte” de Eleven. Transformar um momento que deveria ser definitivo em uma decisão ambígua, transferindo ao público a responsabilidade de interpretar se ela morreu ou não, soa como indecisão narrativa. Não é profundidade; é receio de se comprometer. Um final que tenta agradar a todos acaba não satisfazendo plenamente ninguém.
No fim, a temporada final de Stranger Things não é ruim, mas é claramente menor do que o impacto que a série construiu ao longo dos anos. Falta ousadia, falta risco e sobra nostalgia usada como muleta emocional. A quarta temporada encerrou a história com mais peso, mais verdade e mais coragem do que este último capítulo.
Conclusão
Um encerramento visualmente quase grandioso e financeiramente evidente, mas narrativamente conservador e emocionalmente apressado. Para uma série que marcou uma geração, o adeus poderia e deveria ter sido mais corajoso.
